«مَا تَرَكْتُ بَعْدِي فِتْنَةً أَضَرَّ عَلَى الرِّجَالِ مِنَ النِّسَاء»

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Mais política cultural

Fui ao programa eleitoral do PS, e mais uma vez choquei no principal problema da política cultural...
"...conseguir um equilíbrio dinâmico entre a defesa e valorização do património cultural, o apoio à criação artística, a estruturação do território com equipamentos e redes culturais, a aposta na educação artística e na formação dos públicos e a promoção internacional da cultura portuguesa."
Ou seja: Património, equipamentos, educação artística, nova criação e promoção internacional.
Neste vasto leque de objectivos, não encontro espaço para programações regulares de música, dança e teatro universais. Mozart não é uma criação contemporânea, Eurípides não é património físico português, os bailados de Tchaikovsky não são passíveis de entrar em programas de educação artística e Brahms não promove a cultura portuguesa no estrangeiro. Logo, o que se prevê para a próxima legislatura passa por:
- muitas obras musicais chamadas lxc.34z ou ...quid est... ou ainda Univeral1352!
- Lúcia Cigalho a levantar os braços e as pernas tentando convencer os alunos do ensino básico que aquilo é dança contemporânea, enquanto estes atiram aviões de papel uns aos outros.
- Madredeus, Rodrigo leão e Mísia a fazer concertos em França, Japão e Canadá subsidiados pelo Estado Português.
- Pauliteiros de Miranda e Adufeiras de Monsanto a fazer concertos em Espanha com dinheiro do Estado.
- Construção de equipamentos culturais (salas, teatros, etc, etc) nos quais depois não há dinheiro para manter um director artístico, sua equipa e sua programação semanal.
- ruínas romanas a dar com pau.
Simultanemente vive uma margem enorme da população que tem direito a uma sinfonia ou a uma ópera e não pode ver. Gente pouco iluminada, é certo, que se recusa a tentar compreender Azguimes e Claras Andrematts. Gente antiquada, que se acha no direito de ter uma formação cultural constante de média/boa qualidade sem que o dinheiro dos seus impostos seja entregue sem critério.
Como diria o gajo de Alfama no Gato Fedorento: "mais! outra!":
"...património literário e artístico em ambientes e suportes multimédia."
Suportes multimédia??!!! Para o património literário??!!! Toca a ler Camilo crianças! Se não querem, então dá-se-lhes Eça que é mais fácil. Não querem? Obriga-se, pois então. Não querem? Reprovam.
E já agora que aprendam que Portugal nasceu oficiosamente em 1143, que no dia 5 de Outubro não foi a restauração da independência e o que era a dinastia de Borgonha.
E ainda:
"O Governo do PS continuará a apoiar financeira e tecnicamente as orquestras regionais, revendo a legislação de enquadramento, e encarará como preocupação prioritária contribuir para que ressurja uma orquestra na região Centro. A mesma orientação presidirá à participação na Orquestra Metropolitana de Lisboa."
A Orquestra Metropolitana de Lisboa? Mas não era um projecto privado?
Um orquestra no Centro? Qual? A das Beiras? Parece-me que a melhor coisa que podia acontecer à cultura do centro seria deixar de contar com a Filarmonia das Beiras. Assim, podia ser que nas câmaras não se desperdiçasse milhares de contos anuais com aquele disparate, criando elas próprias as suas iniciativas musicais. Todos ficariam a ganhar; os músicos, os concelhos e os públicos (nomeadamente o seu aparelho auditivo).
Mas também há lá coisas boas:
"Será melhorada a cobertura territorial da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, com concursos anuais e particular atenção às necessidades diferenciadas dos municípios, de acordo com a sua dimensão." Embora vaga, é uma tomada de posição.
E principalmente:
"A regulamentação da Lei do Cinema e Audiovisual far-se-á de modo a prevenir os riscos de confusão entre cinema e audiovisual e entre produção independente e produção das grandes cadeias de televisão, assim como valorizar a decisão de júris independentes e rotativos."
Para que, de uma vez por todas, não se confunda a "Sorte Nula" com o "Vale Abraão".

E é tudo. Peço desculpa pela incisão e concisão.

domingo, janeiro 30, 2005

Em Meca há uns tempos

Se fosse o Papa era capaz de ser notícia...

"
The country's top cleric told 2 million hajj pilgrims Wednesday that some of Islam's own sons had been "lured by the devil" to conduct violent attacks on the kingdom and charged that non-Muslims were conspiring against people of the faith. Sheik Abdul Aziz bin Abdullah al Sheik, speaking at a mosque near Mt. Arafat, lamented the violence waged by Muslim militants against Saudi Arabia. "The greatest affliction to strike the nation of Islam came from some of its own sons, who were lured by the devil," the cleric said. "They have called the nation infidel, they have shed protected blood and they have spread vice on Earth, with explosions and destruction and killing of innocents." He pointedly asked of Muslim youth: "How would you meet God? With innocent blood you shed or helped shed?"

"
leading Saudi cleric issued a plea today for Muslims not to heed calls to wage terror attacks in the name of Islam. Sheikh Abdulrahman al-Sudeis, the state-appointed preacher at the Grand Mosque in Mecca, told pilgrims in a sermon marking the feast of Eid al-Adha that scholars must preach moderation to confront militants, who were using "misguided and void" interpretations to justify violence. His sermon, dedicated to the 2.5 million Muslims performing the hajj pilgrimage in Mecca, echoed comments made yesterday by Sheikh Abdul-Aziz al Sheik. The kingdom's grand mufti said the greatest test to the nation of Islam came from its sons who were "lured by the devil" to carry out acts of violence.Sheikh al-Sudeis said militancy was not a valid interpretation of Islam. "Because Muslims have strayed from moderation, we are now suffering from this dangerous phenomenon of branding people infidels and inciting Muslims to rise against their leaders to cause instability," he said. "The reason for this is a delinquent and void interpretation of Islam based on ignorance ... faith does not mean killing Muslims or non-Muslims who live among us, it does not mean shedding blood, terrorising or sending body parts flying."The preacher warned that extremism would ruin the Muslim nation: "This phenomenon has expanded so much that scholars must confront it with concrete proof from Islam to protect our youth from its stench and putridity."


quinta-feira, janeiro 27, 2005

Mais palavras boas

E que tal Balandrau?
i.e.
"Capa ampla e sem mangas, de origem moçárabe, para a chuva."

ou

Bedém (bedam)?
i.e.
"Capote de palha ou couro contra a chuva; capa mourisca."


O Google é óptimo.

Moçárabes - a língua

Apesar de o assunto ter surgido à baila a propósito de arquitectura religiosa, este texto parece-me interessante. Não é importante. É apenas uma pequena nota que nos delicia com pormenores linguísticos. Avelanal. Malga. Beselga.

E dá-nos também, através da toponímia, algumas pistas geográficas para procurar monumentos moçárabes.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Política Cultural

Caros Barnabés:
Permitam-me acrescentar algumas coisas ao vosso debate sobre a cultura. No entanto, antes ainda de prosseguir na ordem de ideias deixem-me perguntar porque raio é que Pedro Burmester seria um bom ministro da Cultura. Não percebo. Ele é bom pianista. Lá isso é. Não dos melhores, mas é um solista de consumo interno, coisa que nos faz muita falta. Mas que eu saiba, um bom pianista não faz um bom ministro da cultura. É preciso ter a noção do que é a cultura em Portugal. Quer a nível de teatros regionais, actividade profissional, actividade amadora, escolas especializadas (conservatórios de música, teatro e dança, etc.). O que sabe o Sr. Burmester destas e doutras coisas? Geriu o Porto2001. Onde estão, hoje em dia os resultados palpáveis desse programa? Onde estão as programações regulares, contínuas, as pequenas produções de bairro, a cultura barata mas para todos? Cultura, quer queiram quer não, não é o Gato Fedorente no meu Cine-Teatro municipal. O que o Sr. Burmester conseguiu para a música em Portugal, para além de copiar as Variações Goldberg do Gould, foi gerir um futuro elefante branco (Casa da Música), tão grande e tão branco, ou ainda mais, que o São Carlos.
Vou começar pelas escolas de artes oficiais ou equiparadas e passo depois à programação cultural propriamente dita. Existem 6 - conservatórios - 6 do estado no país. Estas escolas são grátis e localizam-se em Lisboa (2), Porto, Braga, Aveiro e Coimbra. Um conservatório faculta aos alunos a frequência do ensino artístico secundário. Sem o frequentar durante oito anos, nunca o aluno poderá entrar numa Escola Superior de Música. Todos os outros conservatórios (Viseu, Évora, Castelo Branco, Torres Novas, Guarda, Covilhã, etc, etc, etc) são pagos e bem pagos. Cerca de 50 euros por disciplina por mês. Como um aluno tem de frequentar em média 4 disciplinas, fica na módica quantia de 200 euros por mês.
Porque é que o estado não me há-de dar a mesma oportunidade de ensino artístico, pelo simples facto de eu ter vivido em Viseu? É evidente que, sendo conservatórios pagos, os professores dependem da frequência dos alunos. O seu salário, o seu orçamento familiar depende de ter muitos alunos. Ora isto impede que o nível de exigência suba. Ninguém pode ser muito severo com as horas de estudo diárias de instrumento; ninguém pode ficar muito zangado se o estudante diz que só anda ali para passar o tempo. Afinal de contas, ele paga o meu empréstimo da casa. Não é assim que se criam artistas e muito menos públicos...
Em Lisboa, por outro lado, é grátis. Como é grátis, todos podem frequentar e, logo, há provas de entrada e uma lista de espera para frequência. O nível sobe; nenhum menino anda lá a passar o tempo. Se não estuda reprova. Se reprova duas vezes sai da escola, porque há outros na lista de espera, nos quais o dinheiro do estado pode ser mais bem gasto.
E que tal, caso existisse um conservatório do estado em cada capital de distrito, fazer um contrato com os professores obrigando-os a fixarem-se na cidade e a realizar três concertos de música de câmara por ano em igrejas do concelho?... bom, mas já estou a ir noutro caminho.
(Nota: estou a tomar a música como exemplo, mas a dança e o teatro vivem exactamente a mesma situação, senão pior.)
Mais ridículo, para os 6 - conservatórios do estado - 6 em 18 - distritos - 18, existem nada mais nada menos que... 6 - universidades de música do estado - 6 voltadas para a performance musical de alto(?) nível. Ou seja, o estado acha que todos os alunos dos seus conservatórios vão, em última análise, parar às suas instituições superiores. Parece-me que nada disto faz sentido. É o mesmo que o estado tivesse tantas universidades quantas as escolas secundárias oficiais.
Quanto à programação cultural propriamente dita:
Antes de mais acabem-se os subsídios a artistas e a criadores. Os subsídios centrais a artistas têm uma carga de injustiça enorme. Todos nós que trabalhamos nas artes percebemos como as atribuições funcionam e sabemos, de antemão, quem vai ficar com o dinheiro e com quanto. Os criadores é um caso ainda mais grave. Quem faz a distinção entre o que faz sentido estético e não faz? Quem é o iluminado que sabe que determinada linha artística é relevante no panorama da arte contemporânea internacional e qual não é? Qualquer dia até os Madredeus são música contemporânea. A senhora dos bidons, por exemplo, à conta de tudo isto está a fazer carreira no CCB.
Cada vez mais, vemos artistas pregando que são bailarinos contemporâneos a receber dinheiro do estado para fazer disparates a solo no palco. Vemos coreógrafos a dizer que a essência do espectáculo para o qual receberam dinheiro do IA é o facto de ser dança não coreografada. Os bailarinos sentem o momento, os músicos improvisam no palco, e nós pagamos do nosso bolso tudo isto! Que tal eu estar em Castelo Branco e ver uma sinfonia de Mozart, ou uma comédia de Aristófanes? Que tal eu estar no Teatro Viriato e poder ver uma peça de Beckett em vez de meia dúzia de gente disforme a fazer um espectáculo a fingir que é teatro. Será que aquela gente sabe estar em palco, sabe falar, sabe projectar a voz, sabe dançar? Eu acho que sonatas de Beethoven, quartetos de Mozart e sinfonias de Haydn fazem parte do meu direito intrínseco de crescimento cultural, esteja eu onde estiver. Será que alguém tem ideia de quanto custa fazer um espectáculo destes por semana numa cidade do interior (um trio à sexta-feira, um pequeno diálogo de Platão no sábado, etc)? Pouco, muito pouco. Fica menos o ano todo, que pagar ao Rodrigo Leão para ir lá uma vez.
Não se deve subsidiar artistas e criadores, mas devem-se subsidiar mercados e públicos. Vamos supor que, em cada capital de distrito havia um Teatro Municipal com condições (e há, só que todos estão ao abandono). Porque não contratar 18 programadores para dirigir cada um destes teatro e 18 assistentes de produção. Cada um deles teria um orçamento para gerir no que toca à logística, e outro no que toca à programação artística. Mas atenção! Não poderiam programar à sua vontade! Juntamente com o dinheiro receberiam uma tabela de obrigações. Vamos supor: do total de concertos, 60% seriam de música de câmara, 30% de música coral e 10% de música sinfónica. 40% teriam de ser fora da capital de distrito e 10% fora de capitais de concelho. 50% teriam de conter música portuguesa, dos quais metade teria de ser contemporânea. Teria de haver, pelo menos, duas obras encomendadas por ano a compositores portugueses com menos de 40 anos e um trabalho musicológico de recuperação e apresentação de obras portuguesas antigas.
Assim, haveria música para todos os ouvintes, concertos para todos os artistas que quisessem trabalhar a sério, edições de música, encomendas para todos os compositores, honra e concertos para os grande compositores que fomos tendo ao longo dos séculos e um crescimento cultural equalitário no território nacional. E sem gastar muito mais dinheiro que no sistema actual. O mesmo para o teatro e para a dança. O cinema é diferente. Um dia me debruçarei sobre isso.
Este tipo de acção estatal coordenada com os conservatórios do estado, seus professores e alunos que acima referi, poderia mudar radicalmente a face da cultura em Portugal. Para melhor.
E para que serve a cultura? Disse-me um amigo, César Viana, que a cultura, não sendo entretenimento (e não é nem pode ser), tem uma função essencial para a economia de um país e sua produtividade. A arte trata de relacionar o abstracto com o palpável, o racional com o emocional, o real com a estrutura. Alguém que consome arte com frequência consegue utilizar melhor os recursos de que dispõe. Seja um gestor a organizar tarefas para a sua equipa, seja um trabalhador individual a tomar opções para a eficácia do seu trabalho, etc... Um operário que tenha ouvido música, consegue compreender mais rapidamente o livro de instruções da sua máquina de trabalho. Porque será que as pessoas na Suécia conseguem ler horários de comboio e nós não?...
Se tudo isto fosse assim, talvez um dia um espectáculo da Clara Andermatt fizesse sentido, talvez mesmo uma obra de Stockausen fosse compreendida pelo nosso público, talvez até a companhia Paulo Ribeiro entrasse com naturalidade no plano cultural da nossa gente. Até lá, deixem-se de coisas, porque sem Mozarts, Beethovens, Tchekovs, Aristófanes, Sófocles, Becketts, Haydns, Tchaikovskys e Camilos em todo o lado e para toda a gente, o Rei da arte contemporânea vai nu (ou então parece) e a cultura não evolui do feudalismo.

Etimologia

O termo Moçárabe teve origem na aglutinação Must´Arab que, à letra, significa "tornado árabe". Repare-se que não se trata de "tornado muçulmano", mas sim "tornado árabe".
Gente que absorveu por inteiro a cultura árabe (muito superior à cristã visigótica) mas manteve o culto cristão românico; curiosamente, extremamente paganizado (via rito cristão Hispânico, profundamente alterado por crenças locais e rituais romanos). Árabes cultos, independentes, intelectuais e humanistas que viam a religião como um alimento espiritual e não como um dogma.
Não tenho certezas sobre o que acabei de dizer. Para todos os efeitos não há definições claras neste campo; vou lá por maioria e por probabilidades. O Asturianos trataram de aniquilar a nossa história, deixando espaços vazios como este.

terça-feira, janeiro 25, 2005

O moçárabe

Se se quiser encontrar algum vestígio de arquitectura árabe e moçárabe em Portugal, pode visitar-se o sítio da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (www.monumentos.pt). Mas, curiosamente, não deve escolher-se "moçárabe" ou "árabe" no motor de busca. Simplesmente não existem. O melhor será escolher "Visigótico" ou "Pré-Românico" e procurar monumento a monumento. Esta ausência não surpreende, se se investigar com mais atenção. Comparando bibliografia, aparecem-nos dados que, se não forem contraditórios, revelam alguma confusão. Por exemplo, a capela de S. Pedro de Balsemão, em Lamego, é considerada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais como um exemplo de "Arquitectura religiosa visigótica" do século VII. Mas numa síntese da arquitectura portuguesa, de José Manuel Fernandes, já é "francamente moçárabe" e do século X. Outro exemplo: a igreja de Lourosa da Serra, em Oliveira do Hospital, é considerada moçárabe na história de Portugal de José Mattoso. Mas no sítio dos monumentos é de novo considerada visigótica. A confusão instala-se quando, também na Nazaré nos surge uma capela de São Gião, com autores a datarem com diferenças de três séculos. E o que é constante a estas contradições? É que os estudos aqui referidos têm, em alguns casos, 80 ou 90 anos de diferença.
Mas o que significará ser moçárabe? Também na "História de Portugal", direcção de José Mattoso, surge-nos como a encarnação mais da "tradição meridional cristã, herdada já da época tardo-romana", e menos de "uma cultura árabe". E a surpresa surge aqui: "a preservação das tradições visigóticas, sobretudo das tradições letradas, é mais obra dos moçárabes (para utilizar o termo consagrado) do que dos neo-godos". Estes primeiros moçárabes eram afinal emigrantes cristãos que se recusavam "a assimilar aquilo que que consideravam costumes ímpios e para eles inaceitáveis". Pregavam o inconformismo religioso, moral e social e não hesitavam em provocar as autoridades muçulmanas. Confusão?

Poema sobre insignificância VIII

" O Nenúfar

Olha para o nenufar no meio destas águas
brilhante como um rubi, molhado como um gládio;
da cor do céu, no centro é amarelo.
Parece um monge a quem os meses e anos
empalideceram o rosto, e que na seda verde,
talhou ao mesmo tempo o hábito e a sobrepeliz. "

Kisâï, poeta persa do séc. XI

segunda-feira, janeiro 24, 2005

PedroSL, CMLisboa, EPUL, SCP e SLB

Pedro Santana Lopes é primeiro-ministro. Nuno Cardoso foi ouvido pela PJ. Para que não seja ouvido apenas quem perde o poder, mas também quem o detém, não resisto a fazer copy-past de um artigo de Miguel Sousa Tavares de Setembro de 2003, apesar de fugir do âmbito do meu blog e, suponho, dos interesses de quem me lê. Não se trata, de todo, de uma defesa de Nuno Cardoso ou Fernando Gomes, mas sim de uma condenação de acção global, não apenas selectiva como tem sido, da corrupção política.

1. Os leitores terão acompanhado uma polémica desenvolvida nestas páginas entre mim e Pedro Santana Lopes, a propósito dos apoios concedidos pelas câmaras municipais de Lisboa e Porto aos respectivos clubes. Ele sustenta que o F. C. Porto foi altamente beneficiado pela CMP na construção do novo Estádio do Dragão; eu afirmo que não, sobretudo se compararmos com os apoios que o próprio Pedro Santana Lopes, enquanto presidente da CML, concedeu a Benfica e Sporting para a construção dos respectivos estádios. Da última vez que voltou a desafiar-me sobre este tema prometi que publicaria aqui os acordos celebrados entre a CML e o Benfica e Sporting, para que os leitores pudessem julgar por si, ao mesmo tempo que o desafiei a fazer o mesmo relativamente ao que diz ter-se passado entre a CMP e o F. C. Porto.
Cumpro agora a minha promessa, continuando à espera que ele cumpra a sua - na certeza de que lhe é muito mais fácil a ele obter os elementos que quiser do seu correligionário Rui Rio, que, além do mais, nutre um ódio de estimação pelo F. C. Porto, do que me foi a mim obter elementos guardados na CML e jamais vindos a público.Passo, pois, a reproduzir as disposições fundamentais dos contratos-programa, celebrados em Junho de 2002, entre a CML, representada por Pedro Santana Lopes, a EPUL (Empresa Pública de Urbanização de Lisboa), representada pelo seu presidente Sequeira Braga, e os presidentes do S. L. Benfica e do Sporting C. P. Vou-me fixar no contrato com o Benfica, porque é aquele que mais referi e que mais envolvimento de dinheiros públicos envolve, assinalando depois as diferenças para o contrato celebrado com o Sporting. E faço-o acompanhar de notas explicativas da minha autoria, destinadas a descodificar uma linguagem contratual que procura eliberadamente esconder a dimensão do que está em causa.Assim:
2. Considerando: O empenho da CML na criação e desenvolvimento das condições necessárias à prática do desporto, em benefício dos cidadãos da cidade de Lisboa;
3. Que a criação do novo Complexo Desportivo do Sport Lisboa e Benfica, designadamente através da construção do novo Estádio e demais equipamentos desportivos envolventes, constituem não só a realização de um interesse nacional... mas também de interesse local, pela sua importância para a cidade de Lisboa...
(Nota - Para que os espíritos mais generosos acreditem que o novo estádio não era principalmente do interesse do Benfica mas sim da CML e dos cidadãos de Lisboa, que vão passar a dispor de um novo recinto para poderem jogar futebol nos tempos livres...)...
4. Que não obstante o interesse municipal na construção do novo Estádio e demais equipamentos desportivos... o Município de Lisboa optou por não atribuir ao Clube uma comparticipação financeira, que oneraria necessariamente o orçamento municipal e prejudicaria a realização das demais obras a cargo do Município...
(Nota - Portanto, não damos dinheiro para o novo Estádio do Benfica...)
Cláusula Terceira1. A CML, de acordo com a legislação urbanística e o Plano Director Municipal em vigor, reconhece o direito a uma área de construção de 65.000 m2 nos terrenos actualmente propriedade deste clube, sitos na zona envolvente do Estádio...
2. O SLB compromete-se a alienar à EPUL, em propriedade plena, e esta compromete-se a adquirir, os referidos terrenos... com a área de construção acima referida... pelo preço de 100.000$00 o m2.
(Nota - E eis como, com toda a limpeza, se desmente o que acima se tinha escrito: a CML não dá um tostão ao Benfica mas dá a EPUL, empresa que depende inteiramente da CML e que tem por objectivo construir habitação a preços reduzidos em Lisboa. Através desta cláusula a EPUL deu ao Benfica 6,5 milhões de contos. Que eu saiba jamais a EPUL comprou terrenos a particulares, visto que, para cumprir o seu fim social, dispõe de amplos terrenos municipais onde construir na cidade de Lisboa. É, aliás, de prever que jamais a EPUL venha a construir um metro quadrado que seja encostado ao Estádio da Luz, negócio que só pode ser ruinoso. Resta acrescentar que, salvo erro, estes mesmos terrenos que Santana Lopes mandou a EPUL comprar ao Benfica haviam-lhe sido doados pela mesmíssima CML, ao tempo do dr. Jorge Sampaio, e com o expresso fim de neles o clube construir equipamentos desportivos de utilização pública e privada - o que jamais fez. Ou seja: a CML, escondida atrás da EPUL, comprou ao Benfica, por 6,5 milhões de contos, os mesmos terrenos que já lhe havia dado...)
Cláusula Quarta1. A CML, a EPUL e o SLB comprometem-se a estabelecer um acordo de associação... que terá por objecto a construção de 200 fogos em terrenos sitos no Vale de Santo António...
2. Os eventuais proventos líquidos desta operação serão repartidos em partes iguais pelas aqui contratantes...[Nota - Não se especifica que área ou que valor terão os fogos a construir mas o fundamental do negócio ficou acordado: em terrenos municipais, a EPUL vai projectar, construir e comercializar 200 fogos, entregando no final um terço dos lucros ao Benfica, que apenas teve de ficar sentado à espera. Ou seja, uma empresa pública que investe propriedade e dinheiros públicos para um negócio a favor de uma empresa privada que em nada contribuiu para o negócio. O Benfica fez já uma tentativa para que a CML lhe antecipasse a sua parte nos lucros, o que não sei se terá conseguido. Tendo em conta os preços praticados habitualmente pela EPUL (e que estão longe de ser baratos), é de prever que cada fogo saia a cerca de 60.000 contos, em média. Se deduzirmos um terço para despesas (o terreno é público, logo grátis), o lucro final pode ser estimado em cerca de oito milhões de contos, cabendo ao Benfica um pouco mais de 2,5 milhões.]Cláusula Quinta1. A CML compromete-se a ceder, a título gratuito e em direito de superfície, pelo prazo de trinta anos, prorrogável pelos períodos e duração estabelecidos em acordo a celebrar entre as partes, um terreno sito no Eixo Norte-Sul, destinado à instalação de um posto de abastecimento de combustíveis, que sirva os dois sentidos do referido Eixo... o qual poderá ser explorado por aquele clube directamente ou ser cedido a terceiro...
(Nota - De acordo com a redacção desta cláusula, o contrato pode ser tendencialmente eterno. Note-se também a habilidade de fingir que se trata apenas de um posto, embora «nos dois sentidos» da estrada. Ou seja, são dois postos e cada um deles está avaliado no mercado em cerca de três milhões de contos de valor de concessão.)
E eis o clausulado fundamental do acordo celebrado pela CML com o Benfica, a tal «solução imaginativa» de que falava Santana Lopes. Contas feitas à imaginação aplicada, a CML, os munícipes de Lisboa, terão no final entregue ao Sport Lisboa e Benfica, em património, dinheiro ou direitos, uma quantia próxima dos 15 milhões de contos. A que se somam os 5,5 milhões provindos directamente do Estado e, aqui sim, ao abrigo de um contrato semelhante celebrado com todos os clubes que se dispuseram a construir estádios para o Euro-2004. Assim, de um orçamento de 26 milhões, o Benfica recebe dos contribuintes cerca de 20,5 milhões para o novo estádio. Está explicado o milagre.
Resta acrescentar que, face a tanta generosidade para com o Benfica, o Sporting tratou de protestar subtilmente, muito embora, no seu caso, o clube já tivesse assinado um contrato de apoio com a anterior vereação. Para evitar problemas, e por «um princípio de igualdade», Santana Lopes entendeu acrescentar aos apoios já concedidos ao Sporting mais o seguinte: licença de urbanização de mais 29.000 m2; o mesmo acordo com a EPUL para a construção de 200 fogos, agora em Campolide, com um terço das receitas para o Sporting; e uma bomba de gasolina no Lumiar, cujos residentes estão já a mover-se para tentar evitar a aberrante construção de uma bomba de gasolina numa rua de habitação, apenas para satisfazer o acordado entre a CML e o SCP.
Uma nota final para concluir que, consciente da imensa generosidade de que deu mostras, Pedro Santana Lopes gabou-se de ter feito incluir uma última cláusula nos contratos-programa assinados com Benfica e Sporting em que estes se comprometem a durante 10 anos não pedirem mais nenhum apoio à CML.
Haja Deus!
Miguel Sousa Tavares

domingo, janeiro 23, 2005

Ainda a retórica

Sobre o discurso, a verdade, a honestidade da palavra e as soluções lógicas do retor, Platão faz no seu Fedro uma análise de fundo. Este Fedro, na minha opinião, é mais interessante ainda que a Retórica de Aristóteles, já que nos transporta às vertentes linguísticas, filosóficas ou sofísticas da retórica através de discursos eles próprios carregados de técnica, que nos conquistam de uma forma arrasadora. Aristóteles, por outro lado, faz um processamento e descrição das técnicas desenvolvidas até à data e de como o pensamento filosófico ao longo dos tempos encarou a disciplina.
A estes livros cheguei através de outros. A saber "Rhetórique de la Modernitè" de Manuel Maria Carrilho e, principalmente, "A História da Retórica" de Michel Meyer, M.M.Carrilho e Benoit Timmermans. Estas obras, preponderantemente a segunda, sugerem-nos autores, filósofos e pensadores através da história da palavra escrita, levando-nos a cada página por potenciais caminhos de grande largura. Isto, se a cada página estivermos dispostos a ir à livraria buscar as sugestões...

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Logos, Pathos, Ethos

Está definido desde a antiguidade clássica que a retórica é composta por estes três pilares fundamentais: Logos, Pathos e Ethos.
Pode, aliás, fazer-se uma história das civilizações através do peso extra que cada povo, em cada altura, atribui a cada um dos três pilares em deterimento dos outros.
De uma forma muito resumida, o Ethos consiste na credibilidade do orador. Na sua magnificiência, cultura, estado social, capacidade intelectual e em como se poderá usar estas qualidades intrínsecas para levar um auditório a acreditar numa verdade.
O Pathos representa o jogo com as paixões e emoções dos ouvintes. A forma como o orador se dispõe a conquistar os corações do seu público, fazendo-o prescindir do controle racional das opiniões.
O Logos representa o raciocínio lógico através do qual se convence o público de uma verdade.
Cícero, por exemplo, era acusado de utilizar abusivamente o seu Ethos e ser um exímio orador na utilização do Pathos, em deterimento do Logos. Como a retórica em geral nos afiança que não existe uma verdade apenas mas algumas verdades com boas probabilidades de serem aceites como tal pelo auditório, de facto o Logos pode perder a importância hegemónica que, à primeira vista, se lhe atribui.
Se, a priori, pensamos que o veículo mais rápido de convencer alguém de alguma coisa é demonstrar a sua inevitabilidade lógica, vemos depois que a verdade não é um ponto; é um intervalo fechado dentro do qual há zonas mais verosímeis e menos verosímeis.
Cícero nunca foi, no entanto, acusado de demagogia. O Logos pode ser um instrumento poderoso mas, para gente inteligente, nada vale sem o Ethos.
E na época em que vivemos qual o peso que os nossos oradores dão, de uma forma inconsciente, a cada um destes pilares?

quinta-feira, janeiro 20, 2005

O que faz um pianista

Desde há muito tempo que julgo um pianista pela capacidade de tocar Schubert. Não tenho nenhum argumento racional para isso, mas é algo que fui descobrindo de uma forma empírica.
Chopin, Liszt, Schumann quase todos os bons intérpretes, de uma forma ou de outra, acabam por realizar satisfatoriamente. Até Mozart, com algum cuidado é sempre possível tocar de maneira razoável. Agora Schubert não; dê lá por onde der. Ou é genial, ou é um fracasso desmedido. Alguém consegue imaginar Martha Argerich a tocar a sonata "Relíquia"? Ou o grande Scziffra? Ou mais por cá, Artur Pizarro?!
Nesta linha, acho que há apenas quatro pianistas de excelente nível hoje em dia (justamente porque são os que conseguem construir algo nas obras de Schubert): Radu Lupu, Maurizio Pollini, Alfred Brendel e Maria João Pires, todos por razões diferentes. Radu Lupu e Maria João Pires pela leveza do toque, pela capacidade de fazer enormes frases ligadas, pela capacidade de fazer com que duas frases desiquilibradas soem exactamente simétricas e que duas iguais tenham um resultado emocional diverso. Pelo direccionamento que conseguem dar, sem nunca forçar qualquer direcção. Esta delicadeza torna-se mais impressionante na compleição física de Lupu.
Pollini trabalha a forma magistralmente. Não há pormenor de frase, de articulação de uma ou outra nota, que não tenha relação com o momento estrutural em que se está, e como aquele vai evoluir numa outra fase.
Alfred Brendel toca a partitura. Seriamente, de uma forma rigorosa e controlada. Segundo ele, se tudo for tocado com rigorosa articulação, intensidade e densidade, a música trabalhará por si própria, a hierarquia naturalmente surgirá, seja na linha individual, numa situação contrapontística ou na condução harmónica.
Quanto aos outros, apesar de verdadeiramente venerar alguns em certos tipos de repertório, causa-me arrepios imagina-los a tocar, digamos, a sonata D.959...
Tenho algum receio de falar de música no blog, apesar de ser este o meu modo de vida (não o blog!...), por temer que a indicutível cultura e capacidade de argumentação do Critico Musical me desmonte o discurso e me ataque as convicções.
Tenha piedade, desta vez...

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Teresa Cascudo

Aí está um novo blog de qualidade. Sobre música, acção e programação cultural. De Teresa Cascudo.

Muito espero deste Contemporâneas.




Poema sobre insignificância VII

"A Alcachofra

filha das águas e da terra,
paa quem lhe almeja os dons
é corpo numa veste recusa.
e na sua beleza obstinada
bem no cimo lá da haste
lembra uma jovem cristã
que cota de espinhos usa. "

Ibn´Ammâr Al- Andalusí, Silves, Séc. XI

terça-feira, janeiro 11, 2005

Pequenas Histórias

As grandes Histórias de Portugal têm a vantagem de analisar a fundo cada facção, cada crise, cada momento de sucesso, cada personalidade e cada revolução. Têm, no entanto, o problema de apresentar um enorme espaço para interpretação, para tomada de posição do historiador, para colocação política do narrador face aos acontecimentos.
A grande virtude que encontro nas pequenas histórias é exactamente o facto de não se permitirem apresentar muito mais que simples factos, deixando as conclusões à capacidade de raciocínio do leitor. Mesmo quando são tomadas posições, o historiador acaba por não ter possibilidade de as fundamentar devidamente por falta de espaço e apreço pelo equilibrio estrutural da obra.
Ainda assim não resisto a comparar a análise de um chefe de estado feita por António Sérgio (num livro que me desiludiu muito) e por José Hermano Saraiva (num livro que, afinal, me surpreendeu positivamente). José Hermano Saraiva diz-nos que D. Sancho II caiu apenas por sua própria culpa. Sempre deu mais uso aos seus pequenos poderes em prol de si mesmo que aos grandes poderes de que dispunha, em prol do país. Por esta pequenez de espírito, pelas intrigas, pela circunscrição política ao Paço, sem haver repercussão fora dele, D. Afonso III (referido como um verdadeiro salvador) conseguiu o trono. António Sérgio (que muito respeito pela independência de espírito, pela racionalidade pura e desapaixonada e pela capacidade analítica) prefere apresentar-nos D. Sancho II como alguém cujas políticas de desenvolvimento atingiram alguns interesses instalados, nomeadamente o poder clerical, tendo sido destituido por força de conluios desonestos e intrigas junto do papado.
Ainda que, como referi, o dito livro me tenha desiludido - Breve Interpretação da História de Portugal - , julgo ser mais seguro acreditar na versão de António Sérgio, cuja fama de crítica pura independente bate por muito a de José Hermano Saraiva.
Mesmo na simples apresentação dos factos, a perspectiva política acaba por vir à tona.

domingo, janeiro 02, 2005

Há mais Portugal fora de Lisboa que dentro dela

Um belo texto sobre a incongruência das grandes cidades. Por cá, julgo que apenas Porto e Lisboa.